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R.Talks entrevista Carlos Kaufmann sobre o tema: Liderança cidadã

Atualizado: Ago 20




A Redibra criou o R.Talks para oferecer aos seus parceiros e ao mercado um espaço de reflexão e inspiração, com visões sobre tendências e atitudes no momento delicado do COVID-19. A cada semana, o CEO da Redibra David Diesendruck entrevista um especialista nos mais diversos assuntos com uma live no Instagram da Redibra.




Para quem não teve a oportunidade de assistir a live com Carlos Kaufmann, idealizador do Unidos do Bem e proprietário do Buffet Villa Glam, resumimos os principais pontos abordados. O tema da live foi “Liderança Cidadã”.


David: Carlos, a Unidos do Bem está completando 84 dias de seu nascimento e nesse período foram distribuídas 180 mil marmitas para mais de 25 instituições. A vida toda você trabalhou com pessoas e comida, até que recentemente abriu o Buffet Villa Glam em Moema, de onde vem essa paixão?


Carlos: Bem, é uma curiosidade que eu descobri só depois de muito tempo trabalhando nessa área, mas meu avô paterno – o qual que infelizmente não conheci – na Alemanha sempre trabalhou com comida também. Ele tinha uma rotisserie, trabalhou em restaurantes, então ele vinha dessa área e acho que eu herdei isso dele.


Mas, realmente, desde os 19 anos quando eu comecei com um buffet infantil, sempre fui apaixonado pela área de gastronomia. Eu fiquei 12 anos com o Pitico, com um formato de barraquinhas para atender festas de crianças, que depois evoluiu e passamos a fazer a festa inteira.


Então, estou há 38 anos mexendo com eventos e gastronomia. Essa sempre foi minha paixão, apesar de eu não saber preparar nem um chá. Eu amo cozinha, vivo em cozinha, a vida inteira trabalhando com isso, mas eu brinco que quando faço chá eu queimo a água. Eu nunca fui de fato para a cozinha, mas sempre estive no meio dela.


David: Você sempre foi um empreendedor. Quais as principais lições que você aprendeu durante todos esses anos que você poderia compartilhar com a gente?


Carlos: Eu estudo a Kabbalah há alguns anos e em uma aula de matemática dentro desses estudos, eu ouvi o seguinte: há quatro pessoas à beira de um rio, três com a intenção de pular na água. Dessas quatro pessoas, quantas sobraram? Teoricamente sobrou uma, mas na verdade, só a intenção não garante que as outras três pularam.


Eu sempre tive iniciativa e assim como a maioria dos empreendedores, o que nos diferencia é o fato de termos as ideias e partirmos para a realização delas. Temos esse espírito de ir para cima e fazer, tem um pouco disso no lado empreendedor e no lado do voluntariado também. Não existe uma receita, mas precisamos iniciativa, um pouco de sorte e competência, dessa forma os ingredientes vão se somando e seguimos em frente


David: Você falou sobre sorte e a palavra sorte em hebraico (mazal) traz em sua escrita o significado de lugar, momento e aprendizado. Não adianta estar na hora certa e no lugar certo se você não tiver o conhecimento para saber o que fazer com isso e, obviamente, você tinha o conhecimento e soube o que fazer.


Carlos: Na verdade, eu me formei em Engenharia de Produção, porque minha mãe sempre quis ter um filho engenheiro. Ela ganhou o filho engenheiro, mas eu continuei fazendo aquilo que eu mais gostava, que são eventos. Comecei com festas infantis, depois festas de adultos e enfim restaurantes. Sempre trabalhei eventos em paralelo com a gastronomia e estamos aqui hoje, com um salão de festas em Moema, mas assim como todo mundo, nós paramos e estamos aguardando o retorno.


David: Em uma citação, Guillermo del Toro disse que nesse momento, para sobreviverem, as pessoas precisam de água, comida e boas histórias. Como você incorpora o storytelling em seus empreendimentos, você tem essa preocupação?


Carlos: Nesse momento, o que mais temos é água, comida e história. O mundo está vivendo uma pandemia e parou por conta disso. Nós estamos ajudando a escrever uma parte dessa história. Todos estamos vivendo uma nova situação, não sabemos como lidar com isso e estamos nos reinventando, mas o que sabemos é que sempre que surge um problema, surge também uma oportunidade.


Se enxergarmos a situação como uma oportunidade de crescimento, nos agarrarmos a isso e enxergarmos o copo que está pela metade como um copo meio cheio, as coisas vão em frente. Eu sempre tive isso dentro de tudo que eu fiz, nada e fácil, sempre temos tropeços pelo caminho, mas isso nos leva para frente e nos tira da zona de conforto.


Eu fiquei em um restaurante no Clube Hebraica por 22 anos, saí de lá e tive que encontrar uma nova ocupação. Foi então que surgiu uma oportunidade com o Buffet Villa Glam, onde estou agora. Eu já vinha trilhando esse caminho, sendo a gastronomia dos eventos, essa oportunidade surgiu há três anos e eu agarrei. Eu nunca me deixei cair, sempre busquei oportunidades durante os momentos de dificuldade, nunca parei um minuto. Essa é uma característica, inclusive, da área de eventos. Lidamos com diversas variáveis e temos que resolver problemas que surgem quando menos esperamos.


David: Vamos falar agora sobre a história da Unidos do Bem. Começou a quarentena, o buffet teve que fechar as portas e as geladeiras estavam cheias e eventos agendados. Qual foi o momento em que você decidiu começar o projeto? Você já tinha algum envolvimento com trabalho voluntário?


Carlos: Eu sempre fui um ativista, não especificamente no trabalho voluntário, mas sempre participei de muitas atividades, desde conselheiro do clube, da escola, até síndico do prédio. Me envolvo muito com as coisas, quando a quarentena começou, eu fui para casa assim como todo mundo. Estávamos com a agenda lotada e teríamos um evento na semana seguinte, então já estávamos nos preparando, geladeira cheia.


Como eu tive restaurante por muito tempo, eu sei que quando acaba o expediente o que sobra nos buffets não é desperdiçado e, sim, distribuído de alguma forma. Nesse momento me veio um estalo, pensando nos moradores de rua que geralmente encontram alimento nos restaurantes, botecos e lanchonetes após o final do expediente e que agora não teriam acesso a isso pois os estabelecimentos estariam fechados.


Chamei a Andreia, minha chefe de cozinha, no dia 30 de março e pedi para que ela viesse até o buffet me ajudar a preparar algumas marmitas com o que tínhamos estocado nas geladeiras. Entrei em contato com um outro amigo meu que já está acostumado com esse tipo de ação de entrega de suprimentos para pessoas em situação de rua e ele foi comigo. Até então eu nunca tinha feito nenhum tipo de trabalho voluntário nesse sentido.


Na segunda-feira, 30 de março, eu fui para a Avenida Paulista com meu amigo Alex e, em 3 horas e meia, nós distribuímos 50 marmitas. A partir daí eu tive para mim que iria realizar esse trabalho todos os dias durante a quarentena, porque as pessoas têm fome todos os dias. Na terça-feira fizemos 80 marmitas e fomos para o Minhocão, lá tinha mais pessoas e foi mais fácil de distribuir.


Na quarta-feira nós preparamos 120 marmitas e meus filhos e minha namorada postaram sobre a ação nas redes sociais, porque há um custo que não é pequeno para o preparo dessas marmitas. A minha intenção era de entregar em torno de 100 por dia, cada marmita custa em média R$ 4,30, então é um custo de R$ 430,00 por dia, pensando em um mês inteiro de ação, isso começa a demandar um investimento maior, em um momento em que todo mundo está parado.


Após essa divulgação nas redes sociais, três conhecidas vieram ao buffet no dia seguinte para ajudar na distribuição e, a partir daí, começaram a surgir pessoas para ajudar de todos os lados. Algumas contribuindo com doações em dinheiro, outras vieram até aqui para ajudar no preparo das marmitas, outras traziam mantimentos como arroz e feijão. Na mesma proporção, começaram a aparecer pessoas pedindo ajuda.


Então aumentamos a quantidade de marmitas preparadas por dia de forma exponencial. De 100, fomos para 300, 500 e hoje preparamos 3.000 marmitas por dia, 90.000 marmitas por mês. É um milagre que isso esteja acontecendo, não temos nenhum tipo de apoio oficial, mas contamos com cerca de 200 voluntários ativos, participando dessa empreitada com a gente. Esse número de voluntários cresce um pouco a cada dia. Cada um que vem aqui e conhece o projeto traz mais alguém para participar no dia seguinte, porque fica encantado com tudo que está acontecendo.


David: Teve algum momento em que você pensou que essa ação poderia não dar certo?


Carlos: Eu nunca cheguei a pensar isso, mas todo dia é um desafio. Esse projeto não é mais meu, estou à frente e o idealizei, mas hoje é um projeto de muitas pessoas. É a vontade e o engajamento de muitas pessoas que faz com que ele dê certo. São cerca de 25 instituições e comunidades que vêm retirar essas marmitas aqui diariamente, começamos o projeto para atender a pessoas em situação de rua, mas hoje levamos também para comunidades carentes que esperam e dependem muito dessa ajuda. Na maioria dos casos, é a única refeição que eles têm no dia. Desde o dia 30 de março estamos aqui de domingo a domingo preparando e entregando essas marmitas.


David: Tem alguma história que te marcou nessas primeiras semanas de Unidos do Bem?


Carlos: Todos os dias vivemos muitas emoções. Uma delas, mais ou menos um mês depois que iniciamos o projeto, foi quando um morador de rua me abordou e disse que gostaria de me agradecer pelas marmitas e pelo que estávamos fazendo pelos moradores de rua, dizendo que são poucas as pessoas que fazem isso pelos outros e terminou falando “espero que um dia eu saia de onde eu estou hoje”. Aquilo mexeu muito comigo, eu gravei o depoimento dele nesse dia, está inclusive no nosso Instagram (quem quiser conhecer um pouco mais, pode nos seguir no @unidos.dobem) e, se você procurar no perfil vai encontrar o Antônio, esse rapaz que me abordou.


Quando eu desliguei a gravação, eu perguntei se ele queria sair dessa vida e ele disse que sim. Então falei para ele voltar no dia seguinte, que ele estava contratado para trabalhar com a gente no buffet. Ele chegou no dia seguinte, de barba feita, banho tomado, roupas limpas e desde então ele está trabalhando com a gente. Saiu de onde ele morava, embaixo de uma ponte, alugou um quartinho e desde então a vida dele é outra. Nós todos abraçamos e adotamos o Antônio e toda a família Unidos do Bem cuida dele.


Nesse momento de pandemia, não apenas conseguimos manter todos os funcionários do buffet, também contratamos o Antônio.


David: Saiu no jornal a respeito das doações multimilionárias de bancos e grandes empresas e muitos médio e pequenos empresários se questionam de que forma podem ajudar também. Que conselho você daria para alguém que quer ajudar?


Carlos: Comece. A ideia que você tiver, vá para cima. Há mil formas de ajudar, tem outro projeto chamado Cores do Bem, no qual moradores de alguns condomínios de uniram para preparar duas marmitas por apartamento na hora do jantar. Eles juntam todas essas marmitas no térreo e um dos moradores se disponibiliza a levar e distribuir para quem precisa. Basta querer para realizar. Não tem segredo, é só fazer.


David: Como funciona o processo da elaboração das marmitas, empacotamento e distribuição? Como isso é feito?


Carlos: Nós temos 38 anos de experiência com gastronomia, fazemos eventos para até 400 pessoas, de jantares a casamentos e coquetéis, mas antes disso trabalhamos muito tempo com formaturas, festas de 8 horas para até 5.000 pessoas. Então, produzir 3.000 marmitas por dia é algo que cabe na nossa realidade. Temos cozinha industrial, cozinheiros e nutricionista. A gente brinca que faz marmita gourmet. Nossa marmita hoje tem arroz, feijão, algum acompanhamento (verduras, legumes) e uma proteína.


Começamos trabalhando com carne, frango e ovo e hoje aprendemos a trabalhar com proteína de soja também. A proteína de soja pode ser estocada em prateleira, então não é necessário ter uma câmara fria para o armazenamento e ela é preparada como arroz, triplicando o rendimento. Assim, conseguimos economizar e esticar o valor que temos disponível para o preparo das marmitas. Nós temos acompanhamento, comida saborosa e a entrega é feita com elas ainda quentes.


David: Como as pessoas interessadas podem entrar em contato para saber como ajudar? Há uma idade mínima para ser voluntário, mínimo de dias que precisem comparecer semanalmente?


Carlos: Nós temos famílias que vêm ajudar, com crianças de 10 anos. Temos atividades que cabem para qualquer idade. A parte de cozinha é feita pelos nossos profissionais, mas quando vem para a linha de produção no salão, temos espaço para voluntários colocarem a comida nas marmitas, fecharem as marmitas, carregarem panelas, caixas. Dividimos tudo e todos os dias temos entre 20 e 30 pessoas nos ajudando. Agora que algumas pessoas já estão retornando às suas atividades, esse número reduziu um pouco. Quem tiver interesse, pode entrar em contato com a gente através do nosso Instagram.


Mas temos outras formas de ajuda também. Você pode compartilhar o projeto pelas redes sociais, para mais pessoas conhecerem. Outra forma de ajuda é através de doações em dinheiro para a compra dos mantimentos e insumos, mas você também pode nos ajudar doando os próprios insumos. Nosso consumo diário é de 200 kg de arroz, 100 kg de feijão e 70 kg de proteína de soja, além de outros insumos. Todas essas opções de ajuda são muito importantes para nós.


David: Como vocês protegem os voluntários com relação ao Covid-19?


Carlos: Nós seguimos todos os protocolos recomendados. Começamos desde a entrada, com um tapete específico para desinfetar os sapatos e álcool gel. Todo mundo que entra no salão já está com máscara e quando chega aqui entregamos luvas e uma touca e temos álcool gel por todo o buffet. Na hora que vamos servir o almoço, os talheres estão esterilizados e embalados individualmente também.


David: Hoje você já é procurado por instituições e comunidades. Qual o critério para selecionar quais serão ajudadas?


Carlos: Estamos entrando na segunda fase desse projeto, pois em algum momento as atividades do buffet serão retomadas e após o retorno das atividades no geral, entendemos que as pessoas dessas comunidades passarão por momentos de aperto, então queremos deixá-los respaldados de alguma forma. Então, nesse momento estamos montando cozinhas dentro dessas comunidades.


O que isso quer dizer? Nós temos contato com os líderes das comunidades, que vêm até aqui retirar as marmitas, então visitamos essas comunidades e identificamos cozinhas prontas ou que precisem de alguns equipamentos e adaptações, equipamos conforme a necessidade de cada uma delas e começamos a operação. Levamos insumos para os primeiros 15 dias e fazemos uma reunião com a comunidade para motivá-los a realizar pequenas doações que possam ajudar a manter o projeto, mesmo que seja com meio quilo de feijão ou um pacote de batatas. Dentro da própria comunidade, encontramos pessoas dispostas a cozinharem e realizarem as distribuições. Essa é a ideia, levar o mesmo princípio de ajuda que montamos aqui para que cada comunidade possa se ajudar internamente.


David: Para a montagem dessas cozinhas comunitárias, vocês também precisam de ajuda e há diversas formas que as pessoas podem auxiliar nesse momento. Você poderia explicar quais são as formas de ajuda?


Carlos: Essa semana uma empresa nos procurou e apresentamos para eles uma ideia de “adoção” de uma comunidade. Assuma a responsabilidade pelo apoio ao que eles precisarem durante a fase 2 para que o projeto da cozinha comunitária possa começar. Eles toparam e já estamos identificando as necessidades de utensílios e equipamentos para a montagem dessa cozinha. A ABCasa vai fornecer os equipamentos e os insumos para os primeiros 15 dias, mas já estamos conversando para que talvez eles forneçam insumos para mais tempo. Cada comunidade absorve de 400 a 500 marmitas, são casas que muitas vezes recebem uma cesta básica, mas não têm o gás para cozinhar, por exemplo. Dessa forma, todo mundo consegue se ajudar.


David: Você acompanha a distribuição das marmitas nas comunidades?


Carlos: Eu nunca tinha entrado em uma comunidade antes da pandemia, fui conhecer isso agora e é incrível ver a reação das pessoas quando o carro chega com as marmitas, principalmente as crianças. Quando abrimos o porta-malas do carro, elas recebem essa marmita como se fosse um presente de Natal. Elas abrem na hora e começam a comer onde estiverem. Isso é fome e essa á a única refeição do dia em muitos casos. É gratificante ver que estamos conseguindo fazer algo por essas pessoas.


Fazer 3.000 marmitas é uma gota no oceano, não temos condições de fazer mais que isso, mas quem estiver em casa e puder fazer algo também, faça. Se quiserem nos ajudar a aumentar a quantidade, nós aceitamos também, seja trazendo o insumo para mais 10, mais 100, nós nos responsabilizamos por produzir e distribuir. Queremos somar, nesse período de pandemia a solidariedade é a cura. É isso que acontece nos momentos em que as pessoas mais precisam de ajuda. Nós vemos muitas pessoas que querem ajudar e não sabem como, então venham até aqui conhecer o projeto.


Se você estiver fora de São Paulo, ajude também localmente, se junte com vizinhos e amigos e peçam marmitas de lanchonetes e bares que estão sem faturamento nesse período. Vocês estimulam o comércio e ajudam pessoas que precisam dessa refeição também.


David: Qual seria sua mensagem final?


Carlos: Primeiro, agradeço muito a oportunidade de estar aqui e apresentar esse projeto para mais pessoas. Entrem no nosso Instagram, lá tem todas as formas de ajudar, endereço e telefone. Venham ajudar a montar marmitas, adotar uma comunidade, enfim, temos um leque de opções para quem quiser ajudar. Acessem @unidos.dobem para conhecer melhor o projeto e toda ajuda é muito bem vinda.


O R. Talks acontece toda quarta feira, as 16h na live do Instagram @redibra.

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